quarta-feira, 14 de setembro de 2011

RIO: GOVERNO CABRAL. ‘Robauto’ da cracolândia aceita tudo na base da troca. Quem não tem dinheiro pode ‘pagar’ com objeto pessoal ou roubado de valor. Auge do feirão do crack em Manguinhos ocorre após baile funk: aliança de ouro vale pedra

POR MAHOMED SAIGG - O DIA
Relógios, pulseiras, cordões, alianças de casamento e até aparelho digital de medir a pressão arterial. Objetos roubados ou não, tudo vira moeda no feirão da cracolândia de Manguinhos, uma espécie de ‘Robauto’. Crescendo às margens de uma das principais obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Rio, o local foi tomado pelo crack.
Foto: Reprodução de vídeo
Desesperado para conseguir a droga, homem tentou vender aparelho digital de medir pressão (detalhe) que admitiu ter roubado | Foto: Reprodução de vídeo
Dispostos a tudo para conseguir pelo menos uma pedra da droga, homens, mulheres e até crianças viciadas transformaram a linha do trem numa feira clandestina. Um homem chegou a oferecer ao repórter aparelho digital de medir a pressão arterial, avaliado em cerca de R$ 150 em lojas, por apenas R$ 4. O dinheiro seria usado para comprar duas pedras de crack.

“Não vou mentir para o senhor. Preciso desse dinheiro para fumar umas pedrinhas”, admitiu o usuário, que insistiu desesperadamente para fechar o negócio. Diante da recusa, partiu para a negociação com outras pessoas que passavam pelo local. Outro homem chegou a trocar com traficantes par de alianças de ouro por pedra da droga, que custa só R$ 2.

Encurralados
Conforme O DIA vem mostrando desde a terça-feira, operários do canteiro de obras estão encurralados pelos usuários da ‘droga da morte’. A presença de traficantes armados que circulam livremente pela região também aumenta a tensão entre os trabalhadores.

Durante três semanas, a equipe de reportagem acompanhou de perto a rotina no local, com viciados desesperados. De acordo com moradores, o ponto alto do ‘comércio’ acontece nos fins de semana. “O pessoal passa a noite no baile funk e vem para a linha do trem de manhã ‘na fissura’, querendo a droga. Aí deixam tudo na ‘boca’. Já vi gente perdendo relógios, pulseiras, cordões de ouro e tênis de marca por pedra de crack”, conta um morador.

Secretaria intensificará ações
A falta de limites dos viciados nos momentos de desespero para conseguir o crack impressiona. Secretário municipal de Assistência Social, Rodrigo Bethlem cita casos em que eles arriscam a própria vida para saciar o desejo de usar a droga.

“Tenho o relato de agentes que acompanham as ações de resgate nas cracolândias contando já terem visto usuários até roubando traficantes para conseguir a droga. Isso mostra como o vício no crack tira a pessoa de si”, destacou o secretário, que prometeu intensificar as operações de combate às cracolândias em Manguinhos.

Repercussão em Brasília

A denúncia do crescimento da cracolândia de Manguinhos, às margens de importante canteiro de obras do PAC, também movimentou a bancada fluminense na Câmara dos Deputados. Impressionados com as imagens disponíveis no site de O DIA, os deputados Edson Santos (PT) e Chico Alencar (PSOL) decidiram cobrar das autoridades solução para o problema.

“O que está acontecendo em Manguinhos é inaceitável. Imagens mostram que os traficantes dominam inclusive o canteiro de obras. Não há sequer indícios da presença do Estado ali, para garantir a segurança daqueles trabalhadores”, concluiu Edson Santos (PT), que vai encaminhar ofício à Secretaria de Segurança Pública do Rio, cobrando explicações. Para Chico Alencar (PSOL), ‘o cenário revelado pela reportagem é a própria negação da aceleração do crescimento’.

“Não adianta só fazer obras. É preciso promover o desenvolvimento humano. Sendo feitas num ambiente de insegurança e degradação, as obras não desenvolvem nada”, disparou Alencar.

Ele vai propor audiência pública na Comissão de Direitos Humanos da Câmara sobre o tema. Desde sexta-feira, O DIA tenta explicação da Secretaria de Segurança do Rio sobre a cracolância de Manguinhos, mas não obtém resposta.

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