segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ES: "AS MASMORRAS JUVENIS DE HARTUNG ". Suicídios, torturas e rebeliões colocam as unidades do Iases no alvo da ONU

José Rabelo - www.seculodiario.com.br

Os membros do Subcomitê para Prevenção da Tortura da Organização das Nações Unidas (SPT-ONU) desembarcam na tarde desta segunda-feira (26) em Vitória. O grupo irá fiscalizar a situação de tortura e maus-tratos em unidades de privação de liberdade destinados a adultos e adolescentes do Estado. Embora a agenda seja sigilosa para evitar a “maquiagem” das unidades, os recentes casos de suicídios, as denúncias de torturas e as rebeliões sistemáticas tornam as unidades de internação de adolescentes do Instituto de Atendimento Socioeducativo (Iases) um dos endereços quase obrigatórios da Subcomissão.

Antes de iniciar as visitas, os integrantes da ONU vão se reunir com representantes das entidades de defesa de direitos humanos do Estado, que vão entregar aos comissários um relatório circunstanciado das denúncias de violações de direitos humanos no sistema de privação de liberdade do Espírito Santo. Segundo o defensor público e vice-presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos, Bruno Pereira, o relatório traz denúncias registradas no Estado de 2006 para cá.

Preocupado com a repercussão das novas denúncias e já prevendo mais matérias negativas na mídia nacional, o governador Renato Casagrande teria mobilizado o vice Givaldo Vieira, na última sexta (23), para sondar o teor das denúncias que serão encaminhadas à comissão da ONU pelos representantes de entidades de direitos humanos capixabas.

O SPT-ONU, que chegou ao Brasil no último dia 19, já visitou os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, mas é o estado capixaba que gera maior preocupação aos comissários, uma vez que o Espírito Santo permanece sob medidas protetivas impostas pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. Na última quarta (21), a Corte decidiu pela manutenção das medidas por mais seis meses para assegurar a integridade dos adolescentes internados na Unidade de Internação Socioeducativa (Unis), em Cariacica.

As medidas passaram a ser aplicadas em novembro de 2009, após as entidades de defesa de direitos humanos do Estado, com o apoio das ONGs Justiça Global e Conectas, denunciarem à OEA, além de torturas e maus-tratos, os casos de três adolescentes que foram cruelmente executados dentro da Unis.

Depois de o Brasil ser levado à ONU em março do ano passado, devido aos casos de esquartejamento de presos, torturas e castigos cruéis que se tornaram rotina no sistema de privação de liberdade capixaba, o governador Renato Casagrande se vê às voltas com novos casos de torturas e mortes nas unidades do Estado ("Masmorras Juvenis" que matam - http://www.seculodiario.com.br/exibir_not.asp?id=23062). Do dia 26 de julho até a última sexta-feira (23), ou seja, em menos de 60 dias, foram registrados dois suicídios e pelo menos nove tentativas em duas unidades de internação de adolescentes do Estado.

Espólio de violações
A manutenção das medidas protetivas da OEA e a “blitz” que o Subcomitê para Prevenção da Tortura da ONU prepara para as unidades de privação de liberdade do Estado são duas evidências incontestes de que o ex-governador Paulo Hartung deixou para Casagrande um espólio de violações.

Na verdade, Hartung, durante os oito anos em que esteve à frente do governo, foi permissivo às violações. Pior, se encarregou de encobrir as mazelas do sistema prisional, sempre se valendo da desculpa de que a situação caótica das prisões capixabas não era exclusividade do Espírito Santo.

Casagrande, que assumiu o Estado como governador da continuidade, recebe agora com juros e correção o espólio de Hartung. No acordo com o seu antecessor, Casagrande aceitou (não se sabe exatamente o porquê) manter o secretário de Justiça, Ângelo Roncalli, e a diretora-presidente do Iases, Silvana Gallina, nos cargos.

A dupla, que já “sobreviveu” à exposição do Espírito Santo perante a comunidade internacional, em março de 2010, quando as denúncias de violações foram levadas à ONU, segue firme e forte no governo Casagrande para tentar “passar” em mais este teste.

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