Foto capa: Tom Boechat e Fábio Nunes
Foram dois crimes de grande repercussão no Estado, os assassinatos do advogado Marcelo Denadai e do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, ocorridos entre os anos de 2002 e 2003. Eles possuem mais coincidências do que se poderia imaginar antes de vir à tona, nessa segunda-feira (25), o depoimento do criminalista Último de Carvalho em processo movido contra dois diretores de Século Diário pelo juiz Carlos Eduardo Lemos.
O depoimento do advogado começa por rememorar os bastidores do primeiro desses crimes, o do advogado Marcelo Denadai, em que aparece o nome do ex-governador Paulo Hartung (PMDB). Ele se preparava para iniciar seu primeiro mandato à frente do governo quando as investigações policiais apontaram para o envolvimento dele e de seu grupo político na morte do advogado. Já nesse início se viu o peso de sua influência sobre as investigações, com a Justiça caminhando lenta e até mesmo paralisada para punir os culpados. Paralisia que logo depois se mostrou capaz de garantir a impunidade dos responsáveis pela execução de seis testemunhas do caso – uma série de chacinas que não apontou um único culpado.
Um ano depois, o segundo crime abalava ainda mais a sociedade capixaba. Vítima de tentativa de um assalto de rua, tombava, com duas balas – uma no peito e outra na cabeça – o juiz Alexandre Martins de Castro Filho, da Vara de Execuções Penais de Vitória, Neste como no primeiro crime, o nome de Hartung apareceu em destaque.
Apesar de as mortes estarem separadas por quase um ano de diferença, a presença do nome de Hartung foi decisiva para as ações atribuídas ao juiz Carlos Eduardo Lemos e ao ex-secretário de Segurança (atual deputado estadual) Rodney Miranda (DEM) no caso Alexandre. Para se fazer essa constatação, basta pesquisar os fatos que circundam a morte de Denadai, como a participação do mandante do crime, o empresário e ex-militar Sebastião Pagotto.
A execução do advogado ocorreu um dia antes da apresentação de uma queixa-crime que iria demonstrar o envolvimento de empresas em fraudes em licitações – entre elas a empresa Hidrobrasil, na época de propriedade de Pagotto. Entretanto, Denadai foi morto antes que o caso chegasse à Justiça. Deste crime, surge a versão da filmagem gravada durante o depoimento de Thor do Império ao juiz Alexandre que revelaria o nome do mandante de outra morte – neste caso, do ex-segurança do Clube Náutico Brasil, José Carlos Preciosa – para impedir a revelação do mesmo esquema envolvendo o peemedebista.
Gravação que implicaria diretamente Hartung no caso e consta no depoimento da personal trainer do juiz Alexandre, testemunha da morte, e cujas fitas acabaram desaparecendo por obra do juiz Carlos Eduardo, segundo denunciou o advogado Último de Carvalho. Em depoimento, ele contou que a violação teria ocorrido tão logo Carlos Eduardo e Rodney Miranda tiveram conhecimento do teor do depoimento, depois também de uma reunião a portas fechadas no palácio Anchieta com o então governador.
Neste momento, a tese do crime de mando se afastou de Hartung – muito embora o envolvimento do líder político não tenha sido alvo de qualquer comentário na mídia, já que o assunto era tido como fora de alcance da imprensa local. Entre as contradições do período estão as saídas do então subsecretário de Segurança, Fernando Francischini (hoje deputado federal pelo estado do Paraná), e do ex-chefe da Casa Militar, o coronel Luiz Sérgio Aurich. Na oportunidade, a versão do meio político dava conta de um suposto conflito entre os dois que teria culminado com a dupla exoneração, novamente sem qualquer indagação da mídia.
No caso de Francischini – então braço direito de Rodney –, as rusgas do passado ainda permanecem com seu antigo tutor. Em entrevista recente ao jornal A Gazeta, o parlamentar pouco explicou sobre o crime e ainda revelou divergências com o ex-secretário quanto à linha de investigação da morte. Apesar de os hoje deputados defenderam à época a tese do crime de mando, a entrevista de Francischini mostra uma inclinação ao envolvimento da extinta Scuderie Le Coq – grupo que teria ligações, segundo a gravação de Thor, com o ex-governador e seu aliado político, o deputado federal Lelo Coimbra (PMDB), através do seu irmão, o ex-vereador da Capital José Coimbra.
No sentido de apagar qualquer impressão digital de Hartung e transferir a responsabilidade pelo crime, os atores envolvidos nas investigações (Carlos Eduardo e Rodney) lançaram mão de personagens tradicionais dentro do sistema de criminalização, como o do ex-militar Walter Gomes Ferreira, o coronel Ferreira. Neste momento, também surgem os nomes do juiz Leopoldo Teixeira e dos ex-policiais Cláudio Batista (Calu) e Heber Valêncio.
Trata-se da mesma tese de mando que hoje é alvo de várias manifestações na Justiça pela federalização das investigações. Os pedidos partem não só da defesa dos acusados nas ações que hoje tramitam nas instâncias superiores do Judiciário nacional como também de representantes de entidades civis organizadas. O mais recente pedido veio da presidente da Associação das Mães e Familiares de Vítimas da Violência no Estado (Amafavv/ES), Maria das Graças Nacort.
A solicitação está nas mãos do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que recebeu também cópia dos autos do processo que tramita na 4ª Vara Criminal de Vila Velha. De acordo com a Constituição Federal, a única pessoa com atribuição de decidir pela mudança na esfera das investigações – da estadual para a federal – é o procurador-geral da República.

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