sábado, 3 de setembro de 2011

ES: Diploma de militância


Henrique Alves - www.seculoidiario.com.br
Foto capa: Gustavo Louzada


   Fotos: Gustavo Louzada
Na cabeça de Gustavo (foto), Marx leu a Bíblia e Jesus, O Capital. Mas o que talvez provocasse escândalo entre religiosos e ira nos comunistas, ele equaciona de maneira simples: “Tudo o que for propiciar uma forma da sociedade viver sem fome, miséria e violência, isso é cristão. Então, a partir daí, comecei a produzir textos [ele tem um blog] para explicar para as pessoas que nem todo cristão é a favor da redução da maioridade penal, contra movimento social”, discorre, com tranqüilidade.

Filiado ao Partido Socialismo e Liberdade (Psol) desde os 21 e evangélico praticante desde os 10, Gustavo De Biase é aos 23 anos mais uma jovem liderança política incubada pela Ufes. Ele e Raphael Sodré, o outro personagem da matéria, são duas expressões de um partido de forte penetração na mais importante instituição de ensino superior do Estado, mas que, fora dela, ainda é recebido com desconfiança, sobretudo em função da pecha de “radicais” que pesa sobre os membros do Psol.

À primeira vista, Gustavo é uma contradição em carne e osso - um cristão filiado ao Psol dispensa maiores ponderações quanto a tal. No entanto, uma breve investigação sobre sua formação desfaz a rede aparentemente intrincada de um suposto paradoxo. E permite entender por que ele não vê diferença entre estar num culto e numa assembleia estudantil.

Há poucas semanas, Gustavo foi eleito presidente do diretório municipal do Psol em Vitória. Sua história no partido de Plínio Sampaio é relativamente recente, mas de célere ascensão. Estudante do sétimo período de Serviço Social da Ufes, curso de tradicional verve questionadora, foi nas idas e vindas da vida acadêmica que conheceu gente ligada ao partido.

Filiou-se em abril de 2009, pouco mais de um ano e meio após seu ingresso na universidade. Já em 2010, candidatou-se a deputado federal, o mais jovem do Estado disputando a Câmara. O triunfo não veio, mas ele obteve mais votos que o candidato da corrente majoritária. Como o Psol agrega inúmeras correntes, sobrou-lhe uma modesta estrutura de campanha. Daí que, para ele, o gosto do revés não tenha sido propriamente amargo.

Gustavo participou ativamente dos catárticos protestos de julho de 2005 contra o aumento das passagens do Transcol. Era então um estudante de ensino médio do Cefetes. Lembra tudo daquele episódio, desde a barbárie policial até a vitoriosa abertura das cancelas da Terceira Ponte. Acompanhou “aquela movimentação toda”, como ele mesmo descreve. Foi justamente seguindo essa movimentação que ele mergulhou de vez na defesa de suas crenças. Só que a preparação do mergulho vinha sendo ensaiada havia muito.



Filho de um servidor da Ufes e de uma vendedora de loja de tecidos, Gustavo - também servidor concursado, mas da prefeitura de Vitória - teve uma vida de classe média clássica, sem fausto, porém sem maiores dificuldades. Nasceu e cresceu no Parque Moscoso, no Centro de Vitória. Aos 10 anos, começou a freqüentar cultos evangélicos pelas mãos do pai. Nunca resistiu nem a família o obrigou. Ia à igreja quatro vezes por semana.

A adolescência religiosa não se resumiu à mera presença na Casa de Deus. Sua personalidade participativa pedia mais: então foi líder de grupo de jovens, professor de escola bíblica, líder de crianças, de evangelismo. Naturalmente, ele se sobressaiu; porém, ao mesmo tempo, percebeu que sua intervenção poderia ir além daquelas paredes. Ele achava possível provar às pessoas que a igreja pode ser uma ferramenta de transformação do mundo.

Assim nasce o duplo militante: religioso/evangélico e de esquerda. Antes do Cefetes, da Ufes ou do Psol, a vivência religiosa já lhe tinha dado uma noção do que era, digamos, se dedicar ao outro. “Parte da minha militância é orientada por uma leitura da Bíblia no sentido de que Jesus também era um contestador. Era um cara que lutava por mudanças no seu sistema”, diz.

Gustavo, ainda, fez 10 meses de Teologia antes de entrar na Ufes. Toda essa vivência religiosa lhe permite se livrar com certa facilidade do estereótipo “evangélico = alienado”. Ainda hoje enfrenta o preconceito e a desconfiança. A família mesmo não atinou com suas escolhas, mas, de toda forma, o apoio é incondicional.

Além da atuação no plano político com o Psol, os estudos finais para concluir o curso e a labuta de 12h às 18h na Secertaria de Saúde de Vitória, da qual é técnico administrativo, no plano religioso Gustavo trabalha no Valentes Noturnos, grupo que, desde 2005, sai às ruas de Vitória oferecendo auxílio a dependentes químicos.

Num certo sábado o Valentes visitou o Morro do Forte São João e ali ele aprendeu o que é desigualdade social: no chão do casebre que se equilibrava à beira do barranco, uma criança comia feijão podre. É uma imagem atroz que carrega até hoje, anos depois, seja em Barra do Riacho (ele presenciou a violenta desocupação no início do ano), seja na Assembleia de Deus de Ilha de Santa Maria, aonde, ainda hoje, vai todos os domingos.

Foram inúmeras as vezes em que o falante Raphael Sodré (foto) foi interrompido ou pelo celular ou por alguém. Estava na Ufes desde as 6h, mobilizado com um grupo de estudantes para fechar os portões de entrada de veículos. Era, pois, uma referência aos que buscavam notícias sobre a greve estudantil.

Sodré, assim como Gustavo, é uma figura interessante. Está no nono período de Direito, curso a que o senso-comum atribui uma tradicionalmente conservadora postura política. Compreensível: seus alunos são em boa parte oriundos da elite econômica capixaba (quadro que, talvez, venha sendo remodelado com o sistema de cotas).

Mas nada justifica estereótipos: da mesma forma que temos um evangélico filiado ao Psol, temos um aluno de Direito. Raphael Sodré, 22, é filiado ao partido desde 2008, um ano depois de ter entrado na Ufes. Já passou por três gestões de Centro Acadêmico (CA) de Direito e, no momento, está na terceira gestão à frente do Diretório Central dos Estudantes (DCE), do qual é Diretor de Articulação. Também já militou na Federação Nacional de Estudantes de Direito (Fened).

Sodré nasceu na cidade do Rio de Janeiro, mas viveu a infância em Americana (SP). Aos 12, mudou-se com a família para o Espírito Santo Hoje, mora em Jardim Camburi junto com o pai, médico. A medicina, aliás, nunca lhe passou pela cabeça. Cresceu vendo o pai enfrentar uma rotina dura e exaustiva que o obrigava a dormir apenas um dia na semana em casa. Não queria isso para si. A mãe, dona de casa, mora em Jardim da Penha.

Graças a uma família que deveras ralou para educar os filhos, pode-se dizer que sua vida passou sem maiores sobressaltos. Não foi fácil: enquanto Sodré sentava nos bancos de colégios tradicionais como os tradicionais Sacre Couer e, mais tarde, Darwin, a irmã mais nova estava no Sesi, cuja mensalidade era bem mais suave. Nada mais que uma estratégia do pai para conferir competitividade ao filho no feroz embate do vestibular. Deu certo, Sodré passou. Agora quem se prepara é a irmã, e com as mesmas condições que foram dadas ao irmão.

O Direito não é legado familiar, não há um advogado entre os seus. Veio antes por pressão de pré-vestibulando. Nas salas do Darwin, os candidatos se dividiam majoritariamente entre a Medicina e o Direito: como optou por fazer o mais difícil - “coisa de pré-vestibulando” - marcou Direito na ficha de inscrição, já que Medicina era carta fora do baralho. Até passou em Comunicação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Mas ficou com a Ufes.

No primeiro dia de aula, participou de uma reunião do Coletivo Contraponto. Gostou do que viu e, ainda calouro, disputou eleições de CA e DCE. Sua chapa ganhou os dois pleitos. No primeiro período, uma trajetória acadêmica que ainda engatinhava, ele não se animou apenas com o movimento estudantil. Identificou-se com o curso também. Acompanhava atento as discussões sobre direitos humanos e reforma do judiciário. Mas dois períodos ele atravessaria uma zona de turbulência.

“Infelizmente hoje a minha freqüência tem sido bastante seletiva. Gosto muito da estrutura do meu curso. Mas tenho aversão a muitas maneiras como ele é encarado. Então eu, a menos que o professor exija freqüência, eu não me sinto à vontade para ir porque não tem espaço para debate e o que o professor diz é o que está basicamente nos livros”, fala o estudante que, num dado momento, “deu uma desanimada” com o curso.



No terceiro período Sodré desacelerou e pegou mais leve para avaliar se continuaria no Direito. Até cogitou abandoná-lo. Isso se reflete hoje nessa “freqüência seletiva”, que contempla sobretudo as aulas de Filosofia do Direito. Ou mesmo as de professores que considera conservadores, mas que, por isso ele faz questão de ir, abrem espaço para o diálogo de ideias. Ocasião incomum num curso que ele define como “tecnicista”.

Sodré sempre acalentou uma afeição especial pelo teatro. Fez, em Vitória, um curso de um ano do Centro do Teatro do Oprimido (CTO), o provocativo método teatral criado por Augusto Boal. E, não surpreende,

reverencia Bertolt Brecht. “Gosto da arte para incomodar e não acomodar”, diz. No Darwin, montou peças inspiradas na obra do dramaturgo alemão.

Chegou a fazer também o curso técnico da Fafi, que abandonou no primeiro ano: não conseguiu conciliá-lo com os estudos. O gosto pelo teatro nasceu cedo. Na infância e adolescência, sempre participou de grupos teatrais, junto com mil outras atividades: organizar saraus, editar livros, escrever poemas, fazer o jornalzinho da escola, estudar música...

É um sem número de atividades que talvez tenha semeado sua sensibilidade de esquerda - a militância política também não é herança familiar. Para ele, a arte foi fundamental nesse processo.

Noutro âmbito, recorda que ainda em São Paulo presidiu o grêmio da escola - isso na segunda série do ensino fundamental. Lembra também de momentos políticos mais palpitantes, como as eleições de 2002 e 2006 (quando fez campanha para Heloísa Helena) e o plebiscito do desarmamento; sempre se posicionava. Até tentou montar um grêmio estudantil no Darwin. Mas a direção tolheu a iniciativa.

De modo geral, a relação com os colegas de curso é bem tranqüila. Não há olhares enviesados para o “militante de esquerda” no ”curso de elite”. Ele inclusive rebate os estereótipos. “Os estudantes de Direito, por mais que tenham essa pecha, esse estereótipo, têm uma orientação progressista, querem uma alteração do Estado, querem uma alteração da Justiça”, defende.

Até agora, não aconteceu nada semelhante aos tempos de pré-vestibular no Darwin. Era o ápice dos debates sobre cotas e muitos alunos de instituições privadas enfureceram-se com a adoção do sistema pela Ufes. O campus de Goiabeiras foi tomado por protestos contra a decisão. Mas Sodré estava lá, defendendo as cotas, raciais e sociais. “Eu era escorraçado!”, recorda-se, aos risos.

A reportagem até tentou entrevistar um estudante filiado ao Partido Comunista do Brasil (PC do B). Seria perfeito: o PC do B e o Psol dividem a mesma sina de grande alcance na Ufes, mas de modesta abrangência fora dela. Recorremos até ao vereador de Vitória Namy Chequer. Em vão. Nem ele conseguiu contato com os estudantes. Fato, contudo, compreensível: em função das eleições, muitos estudantes estão espalhados pelos campi fazendo campanha. Fica para a próxima.

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