sábado, 10 de setembro de 2011

BOM JESUS DO NORTE-ES: Um carro por pessoa no interior do Estado. Município chegou a ter mais de 12 mil veículos licenciados en junho do ano passado. Sete das oito cidades com mais veículos por habitantes estão no interior

Maurílio Mendonça - mgomes@redegazeta.com.br
São 7 horas, e a fila de carros na ponte indica o caos do trânsito. Na volta para casa, o mesmo problema e um pouco mais de paciência. Pensou em Vila Velha ou Vitória? Errado. Estamos falando de Bom Jesus do Norte, cidade de pouco mais de 9 mil habitantes na Região Sul, e sua impressionante marca de um carro por morador, o que a coloca em primeiro lugar nesse ranking no Estado.

Lá, o trânsito virou assunto diário, assim como engarrafamento e horário de pico: é a economia que cresce e muda a tranquilidade do interior. "O produtor rural tem o carro do trabalho, o de passeio e, ainda, a moto para o dia a dia", explica Maurício Cabeleiro, gerente operacional do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-ES).

Hoje, só a Capital - entre todos os municípios da Região Metropolitana - está entre as oito cidades capixabas que contam com mais veículos por habitante. Vitória está atrás de Castelo, Alfredo Chaves, Marechal Floriano, Santa Maria de Jetibá, Venda Nova do Imigrante e Iconha, além da líder Bom Jesus do Norte. Todas têm menos de 40 mil moradores, e a média de até um carro para cada dois moradores, no máximo.

O resultado é um trânsito de dar inveja a qualquer metrópole. "Passar sobre o Rio Itabapoana, usando a ponte do Centro, é um desafio. Há trânsito das 7h às 8h30; na volta para casa, das 16 às 18h. E no almoço também", atesta Pedro Chaves, vice-prefeito de Bom Jesus do Norte.
foto: Bernardo Coutinho
Joâo Stein e o filho Dioni Stein sempre vâo de carro para o trabalho. O município tem um trânsito complicado devido ao aumento do número de carro nas ruas - Editoria: Cidades - Foto: Bernardo Coutinho
"Na hora de ir ao trabalho a gente usa um carro. Mas no fim de semana cada um fica com o seu", Diony Stein, 25, comerciante, mora em Marechal Floriano (na foto, ao lado do pai, joão)
Cada um com o seu
Na família do empresário João Stein, dono de um supermercado em Marechal Floriano, na Região Serrana do Estado, cada um tem o seu carro. "Só a filha mais nova que não tem, porque não completou 18 anos", conta ele.

O problema é onde colocar tantos veículos. "Na hora do trabalho, tentamos ir em dois carros. Não há local para estacionar", constata o empresário.

O problema repete-se em Venda Nova do Imigrante, também na Região Serrana, onde 12,3 mil veículos disputam as ruas. Ultimamente, a caixa Livia Gomes Dadalto tem deixado o automóvel em casa, preferindo a bicicleta para chegar ao trabalho. "É mais prático do que ficar rodando atrás de vaga. O ruim é que ninguém respeita ciclistas e pedestres", critica.

Tanto movimento acaba gerando uma demanda por obras e infraestrutura. Maurício Cabaleiro, do Detran, ressalta que o órgão quer custear a sinalização nos municípios do interior. "Eles fazem o projeto, a gente licita e toca a obra", explica Cabalero.

Mãos à obra

Medidas como implantação de sistema binário - em que vias de mão dupla passam a ter mão única para melhorar a fluidez -, mudança para estacionamento a 45 graus e alargamento de ruas já fazem parte da realidade do interior.

"Vamos pavimentar a Avenida Beira-Rio, paralela à Avenida Domingos Perim. Elas serão de mão única e sentidos opostos", explica José Manuel Bolzan, chefe de gabinete da Prefeitura de Venda Nova.

Viabilizar locais de estacionamento virou prioridade. Em Marechal Floriano, além de alargar avenidas, a prefeitura ainda comprou um terreno no Centro para oferecer mais vagas de estacionamento.

A obrigatoriedade de novos prédios contarem com garagem - que já virou regra na Grande Vitória - está valendo em outras cidades, como Marechal, com seus 14,2 mil moradores. A tranquilidade do interior, definitivamente, ficou no passado.

foto: Bernardo Coutinho
Venda Nova do Imigrante - Lívia Gomes Dadalto, 24 anos, fala da dificuldade de andar de bicicleta em Venda Nova do Imigrante, devido a quantidade de carros na rua.  - Editoria: Cidades - Foto: Bernardo Coutinho
"Não há onde estacionar. Eu deixo o carro em casa e vou de bicicleta. O risco são os acidentes", Livia Gomes Dadalto, 24 anos, caixa, mora em Venda Nova do Imigrante
Reforço do Rio justifica liderança
Duas situações explicam a liderança de Bom Jesus do Norte no ranking de carros por habitantes. O IPVA no Estado é menor que no Rio de Janeiro, o que faz moradores da cidade fluminense de Bom Jesus de Itabapoana registrarem os carros aqui. Além disso, o trânsito é constante entre esses municípios. "Não importa onde registram o veículo. Eles transitam pelas duas cidades, todo dia", diz o vice-prefeito Pedro Chaves.

Proporção entre população e frota

0,9 habitantes por veículo - Os 9.476 moradores têm 10.509 veículos

1,16 - São 12,5 mil moradores e 10.751 veículos (25% de caminhões)

1,65 - São mais de 12,3 mil veículos - 45% de carros - para 20,4 mil pessoas

1,68 - É a cidade das motos. Há 3,1 mil motocicletas a mais do que carros no município, de 34,1 mil habitantes

1,82 - São 7,8 mil veículos, no total, um número baixo, mas que causa trânsito aos 14,2 mil moradores

1,88 - Os 13,9 mil habitantes são proprietários de 7,4 mil veículos (2.573 carros e 2.554 motos)

1,89
- A cidade tem 581 carros a mais que motos. São 18,3 mil veículos para 34,7 mil habitantes

1,98 - Único representante da Região Metropolitana na lista, tem 327,8 mil moradores com 165,7 mil veículos

Moto: tradição em Santa Maria
Há quem ainda ganhe uma megafesta ou uma viagem para o exterior ao completar 15 anos. Em Santa Maria de Jetibá, na Região Centro-Serrana, o presente é uma moto.

"Os pomeranos dão o veículo aos filhos após uma fase da vida deles. É como se chegassem à vida adulta", explica o major da Polícia Militar Paulo César Duarte.

Não é por menos que a cidade tem três motos a cada dois carros e que o número de acidentes aumentou: cresceu 40%, comparando janeiro a agosto deste ano com o mesmo período de 2010.

"Esse tipo de presente é um hábito. Faz parte do nosso cotidiano. Precisamos melhorar a conscientização desses condutores", frisa Carlos da Fonseca, secretário de Administração da cidade.

Enquanto Santa Maria de Jetibá educa os novos motociclistas, Iconha convive com os caminhões. Cercada por transportadoras, a cidade tem 25% da frota compostos por esses veículos.

"Não haverá solução enquanto a BR 101 passar dentro de Iconha. A solução é fazer o contorno previsto na privatização da BR", afirma o prefeito Dercelino Mongin.

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